terça-feira, 24 de março de 2015

1 (um)




Esse conto é uma continuação deste aqui:  0 (Zero)

 


Meus dedos tremiam involuntariamente, como varas bambas, tamanho era o meu nervo. Pensei em dar meia-volta, mas não sou o tipo de pessoa que abandona uma rotina assim. Eu precisava de uma solução imediata antes que eu entrasse em pânico. Fatos, eu precisava de mais fatos.

   - 1. O homem esperava-me, eu tinha certeza, pois estava na minha mesa, pronto para falar comigo.
  - 2. Eu não queria falar com ele e nem com ninguém. Eu queria ler e todos ali naquele lugar estavam cansados de saber disso.
   - 3. Ninguém, além de mim e dos funcionários, passava a madrugada inteira naquele lugar. Não sem fazer nada. Os funcionários trabalhavam e eu lia.


Não, eu não gosto disso. Aquilo irritou-me muito. Tinha três opções: um, eu deixaria de ler naquele dia - pois só podia ler ali; dois, eu sentaria em minha mesa e começaria minha leitura ignorando completamente o fato de alguém estar no meu lugar - MEU lugar; três, eu forçaria a minha vida a uma mudança e sentaria num lugar diferente.

Gastei um tempo pensando nisso, mas escolhi a terceira opção. Fui até quase o meu lugar, evitando fazer qualquer barulho, e sentei-me uma mesa antes, de costas para o sujeito atrás de mim. Era melhor uma pequena mudança do que duas grandes.
Eu suava, copiosamente, mas não retirei o casaco, somente o chapéu. Coloquei-o sobre o banco do meu lado direito, como sempre fazia, mas não era a mesma coisa. Aquele assento não pertencia-me, o da mesa de trás, sim. Meu chapéu, assim como eu, não gostou daquele lugar - senti isso.
Pensei sobre todas as leis existentes, busquei em minha memória algo que pudesse fazer para recuperar o que era meu por direito. Eu pensava sobre isso quando uma voz raspada interrompeu-me.

"Achei que você leria assim que sentasse. Estou surpreso." - disse a voz atrás de mim.

Quanto atrevimento. Só podia ser brincadeira. Alguém devia ter contratado esse fulano para incomodar-me. Não havia explicação melhor. Não pensei num motivo lógico para alguém querer falar com outra pessoa sem conhecê-la, sem motivos, sem necessidade de atendimento. Onde estava a lógica? - perguntei-me. Os fatos me acalmaram.


    - 1. Ninguém continua uma conversa quando não há uma resposta.

   - 2. Era dia da rabugenta peituda assumir a cozinha, logo não precisaria fazer pedidos, só comer meus biscoitos.

   - 3. Quem precisa de café todas as noites?


Eu precisava. Já estava sentado naquele lugar extremamente desconfortável, não abriria mão também do meu café. Aquele sujeito tinha que sair dali. Só precisava aguentar mais um pouco. Peguei meu livro no bolso do casaco e o abri onde estava marcado.

"Ora! Vamos! Você pode mais do que isso. Se não for hoje, será amanhã. Quer prolongar isso por mais quanto tempo?"

Aquela voz raspada arranhou-me os ouvidos. Olhei para o lado e usei minha visão periférica para vê-lo ainda sentado de costas para mim. Estava vigiando meus passos. Como?, eu não sabia. Mas eu não cederia, ele é que procurasse alguém para falar. Os fatos não mentem.


   - 1. Não gosto do som de minha voz, por isso prefiro ficar calado o máximo que puder.

   - 2. Palavras escritas são silenciosas. Até mesmo quando o escrito representa som e barulho.

   - 3. Ele não desistiria, nem eu!


Corri meus olhos para o parágrafo. Adentrei à história. Ignorei desconforto, irritação, sons, ruídos, aquele assento repuxando minhas nádegas em lugares diferentes do habitual. Sou centrado. Sou melhor do que as outras pessoas, disso tenho certeza. Silêncio e livros - só disso que preciso para viver. Ah!, café, biscoitos, e meu prato predileto também.

"É provável, corrija-me se eu estiver errado, que eu tenha mais tempo de sobra do que você."

Fitei com mais atenção as palavras horizontais que corriam da esquerda para direita e de cima para baixo.

"Sei que sua curiosidade é maior do que o medo de quebrar uma rotina."

Palavras atrás de palavras, os livros caminhavam sempre da mesma forma - assim como eu.

"Você devia estar agradecido por eu conceder-lhe esta conversa."

Uma letra junta-se com outra e as palavras vêm surgindo.

"Não vou a lugar algum..."

Linha de cima, linha de baixo, a de baixo, a de baixo. Palavra por palavra.

"Se existe uma coisa que me resta é tempo."

Fim da linha, linha de baixo. Fim da linha, linha de baixo. Fim da linha, linha de baixo.

"Os livros vão continuar lá e eu aqui."

Viro uma folha, sigo uma linha, desço para a próxima, mudo de página.

"Nem tudo é o que parece ser, nem mesmo eu."

Outra folha virada. Mais uma linha, outra, outra, outra. Novo parágrafo.

"Rotina é o que mais nos prende ao tempo."

Linha, linha, linha, linha, parágrafo, linha, linha, linha...

"Ops! Você saltou para a linha errada, confira."

"CHEGA!!!" - gritei levantando-me e virando-me para a mesa de trás.

Notei que atraí muitos olhares. Respirei fundo. Tornei a sentar-me. Peguei o livro solto na mesa. Corri os olhos pela página. Encontrei onde estava e vi: eu havia pulado uma linha.

"Como?" - perguntei, torcendo-me no assento para olhar para trás.

"Tudo possui uma resposta, mas nem todas as respostas explicam tudo."

"Eu não quero conversa, apenas a explicação." - disse eu, já ultrapassando meus limites de um diálogo.

"A explicação vem com uma conversa, como está fazendo agora. Não quer tomar o seu assento rotineiro?"

Bufei irritado.

"Como sabia sobre a linha?"

"Eu sei de tudo. Bom, quase tudo, não consigo prever suas decisões, mas sei que as quer tomar."

"Essa mesa é minha!"

"Eu sei. Tome-a de volta. Sente-se aqui."

Em momento algum ele se virou para falar comigo. Não que eu fizesse questão. Mas a irritação tomou conta de mim. Agarrei o livro e meu chapéu com força e levantei, pronto para ir embora e quebrar meus mais de vinte anos de rotina.

"Sete mil, quatrocentos e doze. Com este aí serão sete mil, quatrocentos e treze."

Minhas pernas bambearam. Sentei-me, perplexo. Os fatos não ajudariam muito agora.


   - 1. O beberrão discute todas as noites com a velha chata. Acredito que é uma tia ou algum parente menos importante. Mas os dois gritam sem parar. A mulher atraente chega todos os dias quando estou quase saindo de meu apartamento. Seria uma linda mulher não fosse o cheiro insuportável daquele perfume acre que se espalha por todo nosso andar. E, ele, está sempre me olhando com aqueles olhos fúlgidos, ruidosos demais para uma fotografia.

   - 2. Desde sua morte eu sigo a mesma rotina. Fazíamos isso juntos: ler. Agora faço só. Desde então guardo todos os livros, empilhados desajeitadamente em inúmeras colunas por todos os cômodos. Lembro-me de todos os títulos de cabeça e os conto mentalmente.

   - 3. Nesses mais de vinte anos, desde que comecei essa rotina, eu li exatamente 7.412 livros.



Continua...         leia a continuação: 2 (dois)



 

8 comentários:

  1. A curiosidade continua...
    Adoro seus escritos! Já li todos que vc publicou aqui! FATO!
    Ainda te encontro no lançamento do seu livro!
    Forte Abraço querido Amigo!
    Damiana

    ResponderExcluir
  2. Dami, minha leitora mais distante!
    Grato por todo carinho e atenção.
    Bom saber que está gostando, pois estou me esforçando para sempre continuar escrevendo.
    Muito obrigado.
    Beijão

    ResponderExcluir
  3. Agora eu vi...☺️
    Você não precisa se esforçar tanto não já é um ótimo escritor! Que eu leio com muita Alegria!

    ResponderExcluir
  4. Intrigante..... muito intrigante.
    Capacidade gostosa essa que você tem de intrigar, Pedro.
    A criação psicológica do personagem está maravilhosa!
    beijão

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Valeu, Telma! Muito obrigado!

      AH, nem é para tanto, para a questão psicológica do personagem eu só busquei informações na minha própria loucura! Hehehe

      Beijos

      Excluir
  5. Ai meu deus, sou tão esquisita quanto o carinha do conto, pensativa agora, um tanto quanto Sheldon Cooper

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. KKKKK que isso, Marcia, vc acha que é esquisita, mas eu acho que vc é muito legal! Valeu todos os comentários!!! Bjs

      Excluir